A imagem de meu pai abaixando a cabeça colocando o rosto em meio aos travesseiros, com um aspecto de descrença foi tão marcante, e na minha mente aquela retrospectiva veloz de tantos e tantos momentos que passamos juntos, que provocou um caos dentro de mim... Depois das dores, consegui parar e assimilar o que havia escutado naquela noite... o pânico foi tamanho, um choque tremendo, que não conseguia falar, ou até mesmo raciocinar... mas uma frase que escutei em algum momento me marcou, 'Você não o perdeu, você ganhou um anjo!'. É, realmente.
Ao acordar, uma chuva fina quebrava o silêncio, batendo no telhado. Sob as cobertas, podia sentir o ar gélido que se mantia no meu quarto, escuro, tenso, e sofredor. Mesmo sóbrio, nenhuma palavra me confortava ou me fortalecia, Era eu, com meus pensamentos apenas, recordando a velha infância...
Me lembro bem dos meus fins de tarde durante minha infância no qual ainda morava lah por perto dele. Ao dar tal horario, sempre acompanhava meu pai até o barzinho velhinho e simples o qual meu velho tio cuidava e passava seu tempo. Sempre ao descer do carro, que ficava estacionado sempre no mesmo lugar, bem de frente a entrada do bar, via aquela imagem do senhor careca, com um sorriso discreto no rosto, e aquele olhar esperançoso. Um abraço era os comprimentos... um sorriso era as boas vindas e substituia as palavras que queriam dizer quão era bom estarmos reunidos. Não me foge da memória tbm, aquele jovem careca, com sua jaqueta de couro, sentado naquele sofazinho gasto, porem aconchegante, com um chimarrão na mao e a lingua a toda, com uma felicidade tremenda por ter em sua casa, pessoas que lhe faziam bem. Posava sem reclamar pras fotos, talvez sem confessar, adorava uns clicks e uns flash's.
Ao certo, essas lembranças vão rodear sempre minha cabeça... Talvez aquela sensação de não ter me despedido, ou de um ultimo abraço não ter acontecido, me doa um pouco, ou talvez a ausencia disso, me faça imaginar que ele não partiu, que em algum momento ainda vamos nos rever. Queria poder estar ao lado de minha tia, parar lhe oferecer minhas condolências, mas nem tudo é como queremos, assim como a morte vem mesmo sem estarmos preparados.
Planos que não serão mais concretizados, sonhos que não serão acompanhados, conquistas que não serão vistas... Como a morte divide tudo. Como ela tem uma força pra mudar tudo, desafiar os fortes, abalar os fracos, e levar nossos anjos.
Meus sonhos, minhas batalhas, minhas conquistas e meu sucesso infelizmente não serão aprovados pelo sorriso dele, ou pelas suas palavras animadas... Mas eu sei que ele vai me acompanhar, sei que sem ele eu não estou. E não só a mim ele estará presente, mas na vida de todos a quem ele ama.
Eu não o perdi, ganhei um anjo.